Sem anestesia
Hiphop, violino, violoncelo ,Voz Masculina
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Lyrics
Isso não é som pra distrair — é pra acordar,
se incomodar… então deixa incomodar,
porque o omisso não para pra pensar —
só aprende a viver sem enxergar.
Sirene virou trilha sonora da nação,
mas isso aqui não é manchete de televisão,
é na chamada cidade maravilhosa onde eu piso o chão —
de maravilhosa não tem nada… só encenação.
Dizem que o Rio é lindo — cartão pendurado,
tristeza estampada e sorriso ensaiado,
sorriso por quê? Eu não vejo alegria,
chegou o dia profano — veste a fantasia.
Cara de carnaval — ilusão e distração,
brilho na superfície, rachado o alicerção,
cartão-postal sorrindo pra contramão,
realidade maquiada pra vender distração.
Gente morrendo por trocado contado,
menino puxando o gatilho — destino descartado,
casa revirada, luto instalado,
mais uma família sepultando o ente amado.
Vida valendo menos que opinião,
violência virando argumento na discussão,
e lá do alto normalizam na declaração —
crime pequeno vira piada em transmissão.
Covardia barata, coragem ausente,
o monstro não tá no filme — tá entre a gente,
roubo armado, roubo alinhado,
do beco ao gabinete — tudo contaminado.
Mas ninguém liga — segue o desfile,
só vira revolta quando é seu próprio crime,
se foi comigo é justiça e punição,
se não foi na família… cai no esquecimento então.
O país sangrando e o povo dopado,
fantasia na rua pra esquecer que tá quebrado,
alegria vendida como salvação,
confete tapando rachadura da nação.
Verdade dói — ninguém quer ver,
mentem pra dentro pra sobreviver,
brigam por lado, bandeira e cor,
e o essencial apodrece ao redor.
Se a ficha é extensa — a rua tá liberada,
lei frouxa, justiça encenada,
responsável dorme, omissão no chão,
cego por escolha ou falta de razão.
Criança sumida, silêncio profundo,
rosto colado num poste do mundo,
mãe grita pro nada — ninguém responde,
a dor se repete — o culpado se esconde.
Infância interrompida sem chance de escolha,
um disparo na cabeça rasgando futuro e história,
nos braços do pai o mundo desaba,
mais um nome virando memória apagada.
CEP do doente não tem endereço nem fronteira,
é de quem depende da rede inteira,
se precisa do público — entra esmagado,
enquanto alguns dão a vida, outros brincam de reinado.
Servidor que esqueceu que é pra servir quer mandar, impor,
olha de cima pra quem paga como se fosse senhor,
batem no peito achando que são peça essencial —
bater palma pra quem se esquece que é funcional?
Tela brilhando e no sinal eu paro,
mas não esqueço dos velhos aposentados roubados — descaso ,
na cara de pau, covardia exposta no chão,
mais um caso esquecido virando estatística na mão.
Rio de contrastes, vitrine e abismo lado a lado,
sorriso de cartão-postal, bastidor abandonado,
vida girando na roleta, fé no improviso,
dignidade andando sempre na beira do aviso.
Que de maravilhosa não tem nada — só maquiagem na ferida,
glitter cobrindo a dor da vida,
a cara do carnaval vendendo ilusão,
mas por trás da fantasia só sobra tensão.
E tem muito mais coisa pra falar — muito mais — mas não dá,
dor que não cabe em verso nem deixa respirar,
verdades soterradas sob concreto e distração,
grito preso ecoando dentro da população.
No sinal eu paro — outros vão passar,
caráter não se compra, respeito se dá,
querem respeito mas não sabem o que é,
só enxergam o próprio umbigo em pé.
Pergunta seca, crua e nua:
quem destruiu isso — eles ou a rua?
Porque a verdade que ninguém engole:
o sistema falha… mas o povo escolhe.
Sem anestesia.
Sem fantasia.
Só realidade
gritando todo dia.
E você vai gritar?
Acho que não…
Tá acostumado a ver e se calar —
“não é comigo”, então.
É… pátria amada …
Sem anestesia.