Era uma vez
Rap brasileiro, relato de BO, clima frio e realista, sem poesia e sem romantização do crime. Voz masculina grave, interpretação séria, quase falada. Beat lento e pesado (70–85 BPM), boom bap/trap híbrido. Bateria seca, grave marcado, sem melodia alegre. Atmosfera urbana, noite, sirene distante, tensão constante. Refrão simples, repetitivo, impacto emocional forte. Final seco, sem esperança forçada. Colocar barulho de tiro
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Lyrics
[Intro]
Era uma vez um cara bonzinho…
Desses que ajudava todo mundo no caminho…
Mas a vida não é conto infantil.
Aqui o lobo veste farda, veste terno… veste fuzil.
[Verso 1]
Cresceu na quebrada, mas tinha outro proceder
Respeitava os mais velho, estudava pra vencer
Mãe acordava cedo, marmita na mão
Ele prometia: “Um dia eu tiro nóis do sufoco, mãe, confia no meu Deus
Jogava bola na rua, sonho de ser alguém
Sabia que o crime chamava, mas dizia sempre “amém”
Pro caminho correto, fé no coração
Mesmo vendo os parceiro escolhendo outra direção
Mas a vida cobra caro de quem nasce sem opção
Humilhação diária corrói qualquer convicção
Porta fechada, currículo ignorado
Enquanto o errado era o único bem remunerado
[Pré-Refrão]
E o sistema empurra devagarinho
Testa a mente do bonzinho
Quando ele percebe
Já tá pisando no espinho
[Refrão]
Era uma vez um cara bonzinho
Que acreditava no caminho certinho
Mas o mundo ensinou diferente
Hoje ele anda frio, olhar descrente
Era uma vez… ninguém viu
Quando o sorriso sumiu
O bem foi ficando sozinho
E nasceu o tal “ruizinho”
[Verso 2]
Primeiro foi só um favor, nada demais
“É só entregar isso ali”, dinheiro fácil demais
Depois veio a peça na cintura, proteção
Dizendo que era só pra garantir a situação
A mente já não dorme igual
Desconfia até de quem nunca fez mal
A mãe percebeu no olhar distante
Mas o orgulho fala alto quando o bolso fica gigante
O bonzinho virou lenda na memória da vizinhança
No lugar da esperança, postura de cobrança
Hoje fala grosso, mas por dentro é conflito
Porque no fundo ele lembra quem ele tinha sido
[Verso 3]
Hoje o dinheiro entra, mas a paz saiu faz tempo
Cada sirene que ecoa acelera o pensamento
Amigo vira estatística, outro muda de lado
E a confiança morre cedo onde tudo é armado
Ele ri em foto, mas vive em estado de alerta
A rua cobra juros altos, não aceita oferta
O bonzinho que existia pede socorro em silêncio
Mas orgulho e medo falam mais alto que o senso
[Verso 4]
A mãe reza baixinho quando ele sai de casa
Sabe que a rua não perdoa, não abraça, não atrasa
O filho que ela criou já não conta detalhe
Porque quem vive no erro aprende cedo a falar pela metade
Sonho virou plano B, plano B virou ilusão
Hoje ele manda, mas obedece a própria prisão
Liberdade virou palavra bonita de fachada
Porque por dentro ele vive em cela imaginada
[Verso 5]
E se o fim chegar cedo, não foi falta de aviso
Foi excesso de portas fechadas, desprezo explícito
O sistema cria o monstro, depois aponta o dedo
Chama de marginal, mas nunca encara o enredo
Era uma vez um cara bom, isso é fato, não lenda
Que virou o que virou pra não morrer na espera
Aqui não tem final feliz nem moral simplista
Só a verdade nua: a rua não cria vilão sozinha
[Refrão Final]
Era uma vez um cara bonzinho
Que só queria um destino melhorzinho
Mas o mundo bateu sem dó
E ele resolveu bater de volta… pior
Era uma vez… e não é ficção
É retrato da periferia em transformação
O mal não nasce sozinho
Ele cresce quando matam o caminho