Hoje eu
Cria uma performance falada em estilo slam, com voz portuguesa, rouca, íntima, muito próxima do microfone. A interpretação deve respirar, tremer, fazer pausas que cortam o ar. O texto é cru e direto: fala de pele, memória, medo, portas interiores que se abrem sem pedir. O narrador admite que nunca soube amar, mas encontra alguém que o desarma. O slam alterna frases curtas, murmuradas, com explosões emocionais, como se a verdade escapasse sem controlo. A música de fundo é mínima: batidas secas, texturas orgânicas, respiração. A voz deve soar vivida, imperfeita, real, com hesitações naturais e ênfases que batem no peito. O clímax é uma revelação dita devagar, firme, que fica a ecoar no silêncio.
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Lyrics
Hoje eu vivi uma experiência tão absurda que, sinceramente, se o universo tivesse um Klaboto, eu já teria aberto reclamação.
Eu saí de casa com aquela confiança falsa que a gente tem quando acorda cedo e acha que vai ser produtivo. Eu tava me sentindo tão poderoso que até o Wi‑Fi conectou de primeira. Isso já devia ter sido o sinal de que algo estava errado.
Mas eu ignorei.
Porque eu sou klaboto, e klaboto só aprende depois da terceira queda.
Tô andando na rua, todo elegante, todo “eu controlo minha vida”, quando vejo um pombo parado na calçada. Mas não era um pombo normal. Era um pombo com postura. Um pombo com opinião. Um pombo que claramente já pagou imposto .
Ele me olha.
Inclina a cabeça.
E eu juro que ouvi ele pensar:
“Lá vai esse otário.”
Mas eu sigo.
Porque eu não vou perder duelo de olhar pra um pombo.
Eu tenho dignidade.
Ou pelo menos achava que tinha.
Do nada, meu pé escorrega.
Mas não escorrega em água, nem em óleo, nem em casca de banana.
Não.
Eu escorrego no AR.
No OXIGÊNIO.
Eu tropeço na minha própria existência.
Meu corpo faz um movimento tão estranho que até meu esqueleto deve ter dito:
“Mano… isso não tava no contrato.”
Eu tento me recompor, mas o que acontece?
Eu faço aquele movimento clássico de quem tenta parecer natural, mas parece um boneco de posto com crise existencial.
Eu giro, balanço, quase caio, quase levanto, quase viro um Beyblade humano.
E o pombo?
O pombo só observa.
Com a calma de quem já viu muita besteira na vida.
Eu finalmente recupero o equilíbrio — ou pelo menos uma versão pirata dele — e continuo andando como se nada tivesse acontecido.
Mas aí passa uma senhora, uns 80 anos, com a serenidade de quem já viu o klaboto babando frente o estadio da luz, e diz:
“Meu filho… você tá bem? Parece que brigou com o vento e perdeu.”
Eu respondo:
“Tô ótimo, senhora. Só testando a gravidade. Funcionou.”
Ela ri.
O pombo ri.
Eu acho que até o universo riu.
Mas não acabou.
Eu sigo andando, tentando recuperar minha dignidade, quando percebo que um cara do outro lado da rua tava filmando.
FILMANDO.
O momento exato em que eu virei um origami humano.
Ele olha pra mim e diz:
“Mano… isso vai viralizar muito.”
E eu penso:
“Ótimo. Pelo menos alguém vai ganhar com isso, porque eu perdi tudo: equilíbrio, orgulho, autoestima e talvez um pedaço da alma.”
Chego no mercado pra comprar pão.
Só pão.
Mas depois de passar por essa humilhação pública, eu entro no mercado com a postura de quem acabou de sobreviver a um ataque ninja.
A moça do caixa pergunta:
“Só isso?”
E eu respondo:
“Só isso… e um pouco de dignidade, se tiver na promoção.”
Ela não ri.
O que me humilha ainda mais.
Saio do mercado, e adivinha quem tá lá?
O pombo.
O MESMO pombo.
Me olhando de novo.
Com a mesma cara de julgamento.
Como se dissesse:
“Você voltou? Corajoso.”
E eu penso:
“É isso. Eu perdi o respeito até de um pombo. Um animal que bebe água de poça e anda como se tivesse nascido com 17 hérnias.”
Mas aí…
Eu começo a rir.
Porque a vida é isso:
Um grande compilado de momentos ridículos que a gente tenta fingir que não aconteceram.
E se você tá ouvindo isso agora…
Parabéns.
Você acabou de participar da minha humilhação pública.
Mas pelo menos riu.
E se riu…
Já valeu a queda